Luz natural, existe um indicador mínimo?

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Se é de nossa responsabilidade proporcionar qualidade de vida, aquela que realmente se preocupa com o completo bem-estar do indivíduo, devemos primeiramente reconhecer que as nossas construções, nossa arquitetura, engenharia e utilização de tecnologia estão falhando.

Para criar um espaço construído ideal para o ser humano é preciso transformar essas práticas. Devemos introduzir o design de edifícios, de paisagens e de produtos, com um entendimento mais rico e detalhado de conforto. Além disso, devemos rever práticas padronizadas de outras culturas e de outros tipos de usuário. Com esse intuito, cada projeto deve considerar os seus próprios requisitos e necessidades.

Especificamente na relação entre usuário e luz, existem problemas fisiológicos e psicológicos intrínsecos que levam a um entendimento entre o limiar de conforto e desconforto humano. Os métodos existentes medem a luz de forma padronizada. Ou seja, eles geralmente não consideram uma condição excepcional.

Uma pequena quantidade de luz natural pode ser considerada inadequada de acordo com os padrões estabelecidos pela regulamentação. No entanto, mesmo em uma situação com pouca luz, essa quantidade mínima de iluminação pode oferecer um efeito positivo.

Os benefícios da luz natural

Em altas latitudes, ou locais com menos disponibilidade de luz, como grandes open-offices, ou subterrâneos, o mínimo acesso à luz natural desempenha um papel muito maior do que apenas a iluminação. Ela informa a estação, conecta o usuário ao ciclo circadiano e marca diariamente um caminho que sintoniza o ser humano com a natureza.

O impacto positivo que o uso da luz natural traz para os usuários torna esse tema de fundamental importância. Especialmente no planejamento de edifícios, onde as decisões de projeto podem oferecer um ambiente autônomo.

Como resultado da análise da luz e seu comportamento em estudo de caso na Estação Antártica Brasileira Comandante Ferraz, foi possível simular a luz natural em um ambiente durante o período de um ano, facilitando o entendimento do acesso a luz natural em situação adversa a grande disponibilidade de luz que temos aqui no Brasil.

Os resultados são surpreendentes. Se avaliados na escala linear e interpretados segundo as normativas brasileiras e europeias, apresentam valores lumínicos rejeitáveis. Entretanto, avaliado em outra escala, que valoriza as menores faixas lumínicas, de 0 a 100 lux, abre-se um leque de medidas que podem ser essenciais ao usuário.

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Na escala logarítmica, a distância entre um ponto medido e outro é uma porcentagem do total. Ou seja, a distância entre 1 e 2 é 100%, que será a mesma distância entre 10 e 20 e assim por diante.

Logo, no caso das avaliações luminotécnicas, usando essa escala, em vez da linear, podemos ampliar a visualização do que acontece com os menores números e assim poder decidir se eles farão a diferença no espaço, ou não.

Padrões estabelecidos respondem apenas a uma parcela de situações do espaço construído. Ir além das regras e se adaptar a cada estudo de caso é fundamental para o desenvolvimento de propostas, quando o foco é a qualidade de vida. Este trabalho é parte de pesquisa cujo objetivo é descrever a influência da luz na qualidade de vida e suas consequências, através de uma avaliação apurada de indicadores que medem o desempenho a luz em aspectos quantitativos e qualitativos.

O texto completo foi publicado no SBFoton 2019 e está disponível no portal IEEE Xplore.

*Escrito por Daniela Paweleski Amaro Marins, arquiteta, mestra em light design e doutoranda em engenharia elétrica na Universidade Federal do Espírito Santo.

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